Livro e cidadania

Os deputados Ney Leprevost, na Assembleia Legislativa, e Marcelo Almeida, na Câmara Federal, cultivam um hábito estranho, até suspeito, entre os políticos brasileiros: o da leitura. Da velha e prazerosa leitura, aquela mesma, que para os de minha e de muitas gerações começava com Reinações de Narizinho e O Picapau Amarelo do insuperável Monteiro Lobato. Daí, as crianças com 10, 12 e anos, aprendiam mais sobre petróleo do que a maioria dos adultos daquela época e mesmo de agora, guiadas pelo Visconde de Sabugosa, ele mesmo uma raridade por ser um membro da nobiliarquia brasileira que fazia coisas úteis.

Hoje em dia, é lugar comum dizer que as crianças não leem mais. Concordo com a opinião de Aureo Monteiro Gomes Junior, ganhador do Prêmio Jabuti: elas leem sim; o que está se alterando continuamente são as plataformas, os instrumentos usados para a leitura e a linguagem que utilizam, abreviada, sintética, ideogramática, própria para os tweets de 140 caracteres. Criança lê, sim, e lê muito. Quem não lê são os adultos e, infelizmente, muitos daqueles que têm por missão, exatamente, educá-las.

A omissão começa nas famílias, nos pais e mães que chegam cansados do trabalho e não se dispõem a perder meia hora lendo para as crianças da casa. Ambos pais e crianças preferem se refugiar na tevê ou na internet. Mas, se o cansaço dos adultos, depois de enfrentar oito, dez horas de labuta e de estresse é uma justificativa razoável para a falta de leitura, nas escolas isso é inaceitável. Mas, como ler nas escolas, se na maioria delas não existe nada que se assemelhe vagamente a uma biblioteca infantil? Como ler nas escolas, se as pedagogias mais populares estão preocupadas em construir o cidadão, sem antes construir os instrumentos básicos da cidadania, que são ler, escrever e contar? Enquanto pedagogos e professores entenderem as escolas como um espaço exclusivamente de preparação para a ação política, em que o conhecimento individual é menosprezado em favor da formação de uma consciência social e os códigos cultos sejam abandonados em favor de uma cultura popular, estaremos condenados a ter uma educação medíocre. Cada vez mais fica claro que o grosso da atenção dos educadores brasileiros se volta para fora da sala de aula e não para dentro dela. E assim, a escola se torna um espaço tedioso e ineficaz em que se repetem chavões de uma pobreza conceitual assustadora, como verdades educacionais indiscutíveis.

É tempo de entender que nunca construiremos cidadãos com pessoas ignorantes, incapazes de digerir e processar as informações que permitem efetivamente o exercício da cidadania contemporânea. Hoje no Brasil, temos 130 milhões de pessoas habilitadas a praticar um dos atos fundamentais da cidadania, que é votar livremente; mas podemos dizer realmente que temos cento e 130 milhões de cidadãos com 40 milhões de analfabetos funcionais?

Portanto, Ney Leprevost, Marcelo Almeida e membros das frentes parlamentares em prol da leitura: perserverem, pois vocês estão no caminho certo. Pouco importa que estejam pregando no deserto e pouco importa que estejam pregando para um público majoritariamente indiferente, pois, como dizia Roberto Campos, no Brasil a burrice tem um passado glorioso e um futuro promissor.

Agradeço ao meu avô que me franqueou uma vasta biblioteca para a leitura de textos que os mais prudentes considerariam inadequados para minha idade. Ao meu professor de Português de ginásio, Antonio Fagin, um lusitano fugido da ditadura salazarista que me apresentou a Eça de Queiroz, Machado de Assis e, pasmem, Fernando Pessoa. E a todos que fizeram com que eu possa copiar o ex-chanceler alemão Helmuth Schmidt que dizia que quando entrava em uma livraria, sentia-se como um sultão que entra em um harém: Sei o que fazer, só não sei por onde começar!

Belmiro Valverde Jobim Castor é professor do Doutorado em Administração da PUCPR.

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